“A Mão que Mata” – um livro que desiludiu

Infelizmente, a publicação de hoje não é tão favorável como eu gostaria que fosse a opinião literária de um novo autor português, mas atenção, não se vão embora já – há pontos positivos para enaltecer também!

A não ser que vivam debaixo de um calhau (ou numa aldeia da Beira Interior), já terão ouvido falar do livro “A Mão que Mata“, o título de estreia do jovem Lourenço Seruya. E deixem-me já começar por congratular o autor pelo tão variado leque que é o seu espectro profissional – teatro, cinema, televisão e agora literatura! Um artista de mão cheia, e tudo isto antes dos trinta anos. Não tenho dúvidas de que ainda iremos ouvir falar muito deste moço.

Numa fria manhã de inverno, é encontrado um cadáver numa mansão na Serra de Sintra.
A família Ávila estava aí reunida para formalizar as partilhas patrimoniais, na sequência do falecimento do patriarca e jamais imaginava que o processo seria interrompido daquela forma.
O Inspetor Bruno Saraiva e a sua brigada da PJ são chamados a investigar, deparando-se com um caso peculiar: a vítima não era propriamente adorada pelos familiares, mas também ninguém tinha motivos para a querer morta. Terá o homicídio resultado de um assalto? (…)

A minha primeira queixa emerge mesmo antes de se abrir o livro: a sinopse. É demasiado longa e reveladora sem qualquer necessidade… E mais abismada fiquei quando li a sinopse da Wook (que é diferente da sinopse do livro físico, nb) que tem a proeza de incluir uma cena que surge na recta final da narrativa, a cerca de 81% da leitura! Eu sei que provavelmente o autor não tem mão nisto mas, editores e directores deste país, por amor de Deus! Não é de admirar que depois as supostas surpresas não surpreendam leitor nenhum… Ainda nem comecei a falar da história e já estou enervada, credo.

Não precisamos de muitas páginas para percebermos que a escrita não é particularmente polida ou “melodiosa”, caindo mais para o espectro do artificial e do “curto e grosso“. O que não é necessariamente mau e pode até ser do agrado de muitas pessoas, especialmente de fãs deste género de livro. Se vocês não forem adeptos de “palha”, então o ritmo desta história será perfeito. Pessoalmente, gostava que o autor tivesse dispendido mais tempo em descrições de cenários e principalmente em desenvolvimento de personagens e de relações. Não que isso estivesse ausente de todo; a tentativa esteve lá mas um outro problema que detectei é que para um livro tão curto há demasiadas personagens e, numa circunstância destas, é natural que a caracterização do elenco saia prejudicada.

Perdoem-me esta obsessão com a falta de personalização mas considero sinceramente que neste caso actua contra a intenção do autor de nos entregar um mistério – quando nos são apresentados dez marmanjos mas depois só um ou dois é que tem direito a alguns capítulos de desenvolvimento de carácter e de história pessoal… fica bastante evidente que serão esses nomes a estar associados à resolução do crime. Qualquer leitor mais atento e com alguma experiência no género consegue desvendar o caso quase a meio do livro. O que não é um bom sinal num livro que por si já não ganha pontos pela qualidade da escrita ou pela originalidade do cenário e do elenco.

Estou moderamente a exagerar. Pode-se desde cedo desconfiar com alguma certeza do(s) criminoso(s), mas isso não significa que o resto do livro seja uma perda de tempo. Para além de se descobrir o culpado, é tão ou mais importante conhecer-se o motivo. E esse concedo que não é tão fácil deslindar – só se já tiverem visto muitas novelas brasileiras ou lido múltiplos romances de cordel. De qualquer modo, este é um livro de mistério e pelo menos neste aspecto conseguiu surpreender-me. Mais ou menos como quando estava a ler “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada” e descubro que a vilã é fruto da relação entre o Voldemort e a Bellatrix Lestrange; nunca na minha vida me iria ocorrer tal revelação. Foi a mesma revelação que me fez odiar o livro e perder toda a vontade de ler/querer futuras publicações relacionadas com Harry Potter, mas isso são outras questões.

Olhando para o meu bloco de notas reparo que tinha muito mais picuinhices para mencionar mas, sinceramente, acho que ninguém ficaria a ganhar com isso. O importante da minha opinião está partilhada e parece-me que com esse material estão mais do que aptos a tirar as vossas ilações. Mas só porque sim, deixo de seguida uma compilação de apenas alguns clichés que é possível encontrar nesta história (leiam por vossa conta e risco):

Posto isto, já todos percebemos que “A Mão que Mata” está longe de ganhar algum prémio ou de figurar na minha lista de preferidos do ano. Há que ter em atenção que o Lourenço não é formado em Literatura e só o facto de ter conseguido publicar uma obra sólida no mercado português é já em si um feito de orgulho – e não levem só a minha opinião em conta, o livro conquistou já muitos fãs por esse Portugal fora!

Nem todos os autores serão o próximo J. D. Sallinger, um gajo que escreve um clássico atemporal logo à primeira tentativa. E muito provavelmente nem era essa a intenção do Lourenço Serouya, um jovem que se calhar só queria escrever uma história sua e partilhá-la com o mundo. Com esta estreia só provou ser uma pessoa de coragem e resiliência e por isso também o aplaudo.

O segundo volume da série já está na calha, por isso, podemos esperar mais inspector Bruno Saraiva num futuro próximo. Independentemente de eu estar interessada ou não nessa continuação (actualmente inclino-me para o não) só temos de agradecer e apoiar estes jovens autores na sua labuta para publicar neste mercado tão difícil. Não é para qualquer um!

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1 Comment

  1. Sim senhora De facto um problema bastante grande dos “pequenos” livros de hoje em dia é a falta de desenvolvimento das personagens/mundo.

    Talvez o próximo venha com as arestas mais bem limadas

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