Eis um livro tão obscuro que tive de ir pedir ajuda aos voluntários do Goodreads para regularizar a ficha técnica da obra, de tão incompleta e errada que estava (portanto podem agradecer-me pela existência desta página). Confesso que esperava mais popularidade de um livro recomendado no programa do Paulo Portas, mas provavelmente as pessoas que vêem o Global não são as mesmas que usam o Goodreads – o que faz sentido.
Honestamente não sabia o que esperar da obra e ainda hoje, depois de a ler, tenho dificuldade em categorizá-la. Este pequeno livro foi publicado em 2021 por A. R. Azzam, doutorado em História pela Universidade de Oxford e actual conselheiro da família real do Qatar (o que quer que isso signifique). Não há muita informação na Internet sobre o autor por isso não faço ideia do que levou um senhor que nasceu no Egipto, que estudou em Inglaterra e que mora no Qatar a escrever um livro sobre um rei português… Cada um com a sua tara.
Quando digo que não sei como classificar “O Regresso de D. Sebastião” é porque ele não é nem um romance histórico nem uma tese de não ficção puramente factual, é algo intermédio. Especulação histórica, talvez? De forma pragmática, leve e corriqueira, a narrativa corre por entre datas, nomes, territórios, títulos e ainda mais nomes, tudo para nos fazer reflectir sobre o grande mistério lusitano do século XVII (e talvez de sempre): D. Sebastião morreu ou não na Batalha de Alcácer-Quibir?

Na escola, pouco ou quase nada é ensinado sobre este jovem rei, sobre a sua personalidade imberbe, inconsciente e mesmo desrespeitosa tendo em conta o “cargo” que ocupava – o único herdeiro da coroa portuguesa. A sua tolice levou-o a atrair a suposta morte demasiado cedo e a instaurar os 60 anos da Dinastia Filipina em Portugal. Apesar de a perda da independência não ser o foco da obra, ainda são dedicados alguns capítulos a essa transição e de uma maneira que poderá surpreender aqueles que encaram o momento como uma tragédia nacional e o Filipe II como um grande vilão.
O objectivo do livro é, na verdade, dar a conhecer detalhadamente o episódio sensacional do homem que dizia ser D. Sebastião, vivo e retornado, o verdadeiro Rei de Portugal. A maioria de nós nunca ouviu falar dele, mas ele existiu mesmo: Marco Túlio Catizone, o falso de Veneza, calabrês que em finais do século XVI começou a desfilar pelos reinos de Itália apresentando-se como o rei perdido, acompanhado por um séquito de crentes e publicitado por panfletos e arautos proféticos.

É um relato tão incrível que fico genuinamente espantada por ser tão pouco conhecido. Para mais pormenores sobre a conclusão desta aventura, recomendo definitivamente a leitura do livro, relembrando que no meio de muito facto e documentação história há também muita especulação e teorização, algo que o autor deixa bem claro ao longo do texto.
É de facto uma narrativa intrigante de um capítulo da nossa História tão desconhecida e impressionante. Terá sido um dos primórdios do fenómeno que entretanto se cunhou como “Sebastianismo” e o que nos leva a evocar Sebastião em dias de nevoeiro. Um livro diferente e fascinante, pequeno mas completo, de um autor misterioso que me surpreendeu muito.
