“O Mistério do Comboio Azul”, um para passar à frente

Amantes de policiais como eu saberão que Agatha Christie é autora de topo nesse género; aliás, qualquer leigo estará a par da sua popularidade e qualidade. No entanto, é de esperar que na imensa lista que é a sua bibliografia (estamos a falar de cerca de 66 histórias, mais coisa menos coisa) apareça pontualmente um ou outro que seja mais rasca e que facilmente caia no esquecimento. “O Mistério do Comboio Azul”, publicado em 1928, é infelizmente um desses exemplos.

Não há aqui qualquer espaço para comparação com o famoso “O Crime no Expresso do Oriente”, só para tirarmos já os comboios da frente. Aqui o cenário passa-se no famoso Comboio Azul (Le Train Blue), máquina de luxo que operou na França até 2003, percorrendo o país de Norte a Sul, de Calais a Nice, durante a noite. Uma abastada jovem americana é brutalmente assassinada no seu camarote e os seus famosos rubis originários da aristocracia russa são roubados. Suspeitas recaem sobre o viúvo, o amante, a amante do marido, a criada… a panóplia do costume. Felizmente, a polícia francesa pode contar com o apoio do detective Hercule Poirot, que também se encontrava a bordo, para a resolução do mistério.

Este livro é demasiado extenso e nem o intelecto do Poirot chega para o tornar interessante. Pessoalmente, tenho pouca paciência para histórias sobre jóias e máfias das bijuterias, embora já me tenha apercebido, tristemente, que é um tema comum nas obras da Agatha Christie. O preâmbulo, onde somos apresentados em detalhe a todos os personagens, é muito longo; só depois de cem páginas e dez capítulos é que finalmente percebemos que Poirot entra na trama também. O detective é introduzido no momento em que trava conhecimento com Katherine Grey, uma espécie de co-protagonista a quem é dedicada demasiada importância e texto desnecessariamente.

O desfecho é entediante e pouco original, deixa-se adivinhar várias páginas antes do final o que só nos faz sofrer com mais cenas e interacções escusadas que já sabemos serem meras distracções. É possível que esteja a ser demasiado rígida com o livro mas, em minha defesa, nem a autora gostava muito deste título, tendo-se referido a ele como “easily the worst book I ever wrote was The Mystery of the Blue Train. I hate it.” (fonte). Continuando a citar: “commonplace, full of clichés, and that its plot was uninteresting.”. Acho que nem preciso de dizer mais nada, a não ser que não recomendo muito esta leitura e que, felizmente, tenho ainda muita bibliografia da Agatha Christie por ler em casa.

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