Houve uma altura da minha vida em que ler livros trágicos sobre a Segunda Guerra Mundial era quase um passatempo, e quanto mais macabro, melhor – não digo isto com orgulho, mas é a verdade. A proximidade com histórias tão terríveis mas verdadeiras tornavam-me mais complacente para com a minha própria vida, um exercício extremo de comparação. Eventualmente, e sem razão aparente, esse interesse mórbido foi-se diluindo aos poucos e hoje em dia é muito raro pegar em qualquer tipo de literatura relacionada com o assunto.
A última ficção do género que li foi a duologia do José Rodrigues dos Santos e sabe Deus que, embora tenha aprendido algumas coisas, me penou muito passar por aqueles diálogos assombrosos, como é habitual (mas para lerem mais sobre as minhas reclamações dos livros do JRS, podem ler a minha última publicação). No entanto, não é uma porta que tenha fechado completamente e por isso não estranhem se volta e meia eu aparecer aqui com romances históricos dessa época, como é hoje o caso. “O Rouxinol“, da americana Kristin Hannah, foi escolhido para leitura do mês no Patreon da Dora e tendo já ouvido coisas tão boas sobre ele ao longo dos anos, optei por ler também.
Não há campos de concentração, judeus ou miséria extrema página sim, página não. Mas há morte, fome, desgraça e tudo o resto de bom que uma guerra traz. O romance começa no ano de 1939, na França, o Aliado na 2ª Guerra Mundial que acabou por ser mais passivo do que aquilo que provavelmente nos recordamos das aulas de História. Acontece que em 1940 a Linha Maginot foi rompida e o país foi invadido pelos nazis. Ao invés de insistir em batalhas sangrentas e possivelmente inglórias, a França propôs um armistício e sob o Governo Vichy continuou a administrar o seu território, as leis e o povo mas sob o comando alemão. É um capítulo da guerra muito interessante e que me era desconhecido, confesso, e por isso fiquei entusiasmada com a perspectiva de leitura.

Vianne e Isabelle são duas irmãs afastadas por circunstâncias da vida e é graças às suas diferenças que o livro nos permite conhecer diferentes planos do que foi para um francês viver sob aquele regime. Vianne é a inocente e resignada irmã mais velha que vê o marido partir para a guerra e que acredita veementemente que Vichy protegeria a França do pior da guerra. Sob a perspectiva dela lemos sobre as privações de comida, roupa e víveres no geral, sobre os nazis a imiscuir-se progressivamente nas suas vidas e inclusive nas suas casas e como foi escalando a violência geral contra judeus e outras minorias. Episódios reais chegam a ser mencionados, como o massacre de Oradour-sur-Glane ou a actividade do pós-guerra para juntar órfãos judeus com eventuais familiares ainda vivos, ainda que para isso fossem deslocados das famílias que entretanto os tinham adoptado.
Isabelle, a irmã mais nova e rebelde, representa a fracção revolucionária da França que nunca esteve adormecida e que viria inclusive a ser crucial na fase final da guerra, ajudando clandestinamente os outros Aliados. A viver em Paris desde o início da guerra, Isabelle trava conhecimento com grupos de maquis e ela própria protagoniza acções de resgate de pilotos ingleses e americanos a partir dos Pirenéus, arriscando a vida várias vezes. Também nos seus capítulos lemos sobre a escalada da violência alemã, incluindo o episódio da Operação Vento da Primavera (no original La Rafle du Vel d’Hiv), uma rusga feroz em que famílias de judeus foram arrancadas de casa, agrupadas em pavilhões e posteriormente transportadas para campos de concentração. O campo feminino de Ravensbrück também acaba por ser descrito em alguns capítulos, embora sem grande detalhe ou atenção especial.

“Sim, Mariana, estás farta de falar da História, mas então e a história?”, consigo ouvir-vos perguntar. A resposta é simples; tenho estado a falar da parte que de facto me agradou mais no livro. Nenhuma das protagonistas me cativou particularmente, nem os seus dramas pessoais, por muito trágicos e até realistas que possam ter sido descritos. Ainda para mais, as surpresas e as grandes revelações surgem em catadupa na terceira parte do romance e são ou demasiado mal explicadas ou de tal forma melodramáticas que não tive tempo nem vontade de me importar ou emocionar.
Como ficção, achei de facto um romance relativamente fraco, apressado e mal explorado. Teria talvez ganhado com mais páginas a explorar sentimentos e pensamentos interiores das personagens. Desgraças e surpresas vãs, só para servir o enredo, não me traz muito valor. Mas, fora isso, é uma obra que me vejo a recomendar a quem se interessar pelo tema ou quem simplesmente gostar de ler romances. Não acho que foi tempo perdido, fez-me aprender muito e é também por aí que meço a qualidade de um livro. No final, o saldo é positivo, a minha estreia com Kristin Hannah passou a fasquia e sou capaz de voltar à autora algures no futuro. Pode não me ter arrebatado, mas entendo o frenesim que se gerou em torno do livro.
