Em 2025 a minha primeira leitura do ano foi efectivamente “O Codex 632“, o clássico do jornalista José Rodrigues dos Santos que inaugura a extensa e já infame série do professor Tomás Noronha. Escrito em 2004, publicado em 2005 e com uma narrativa passada no ano 2000, este é um livro que não deve ser visto nas mãos de um português há décadas. Muitos que o leram já o esqueceram (serão esses os felizardos?). E portanto, que febre foi esta que se me acometeu e me fez fazer ir reler “O Codex 632”?
Como já referi algures no passado, é uma tradição de Natal os meus pais oferecerem-me o livro mais recente do José Rodrigues dos Santos. E sim, senhores eruditos que estão agora a revirar os olhos, eu li-os praticamente todos. Não sou masoquista (bom, talvez um pouco), mas a verdade é que sempre fui acabando por aprender alguma coisa com as obras, nem que fosse indirectamente fazendo posteriormente algumas pesquisas alargadas sobre os temas. Acontece que, de há uns anos para cá, sinto que preciso fazer o dobro do esforço para tirar algum proveito destas leituras que me parecem cada vez mais medíocres e penosas, para não dizer mesmo indigestas. É talvez incoerente pensar que quanto mais um autor escreve, piores vão sendo os livros, mas é exactamente essa sensação que tenho vindo a sentir em relação à série do Tomás Noronha. Mas, não fosse tudo isso fruto da minha imaginação, decidi tirar as teimas e regressar à origem, e assim tentar chegar a alguma conclusão.
O Tomás Noronha apresentado no Codex é, não inesperadamente, um homem diferente daquele que vemos nos livros actuais: 35 anos, professor de História na Universidade Nova de Lisboa, casado com a florista Constança e com uma filha, Margarida, uma criança com Síndrome de Down e com problemas graves de coração. Profissional competente, esposo desiludido e pai imperfeito, a sua vida muda quando é contratado por uma fundação americana para concluir uma investigação supostamente relacionada com os Descobrimentos e em particular com a descoberta do Brasil.

O foco da narrativa rapidamente se vira para as verdadeiras origens de Cristóvão Colombo, navegador a quem é creditada a primeira chegada dos europeus ao continente americano em 1492. A premissa mais aceite pelos estudiosos é a de que o explorador era genovês, de Itália, mas documentos e cartas estudadas por Tomás durante a narrativa levam-no a crer que a História pode estar equivocada, e que não é do interesse da Fundação ou dos institutos genoveses que essa suposta verdade seja divulgada. E até onde estão dispostas a ir essas entidades para proteger os seus segredos?
A minha grande conclusão, enredos à parte, é que o autor ser muito fraco a escrever diálogos (e ficção em geral) é uma infeliz característica que está já presente neste primeiro volume da colecção. É abismal a pobreza de senso comum ou a falta de sensibilidade que José Rodrigues dos Santos tem para adicionar um mínimo de credibilidade ao romance que quer enfiar à força no seu tratado de História. Quer tente escrever falas sérias, sensuais, engraçadas ou dramáticas, o resultado para o leitor é sempre o mesmo: vergonha alheia.
Tomás trincou um pedaço de peixe, pareceu-lhe abrótea, temperado pelo líquido branco do caldo.
“Por que razão é branca a sopa?” – admirou-se ele.
“Leva água, mas também leva leite”.
“Leite?”
“Sim” – assentiu ela. Parou de comer e fitou-o com uma expressão insinuante – “Sabe qual é a minha maior fantasia de cozinheira?”
“Hã?”
“Quando um dia for casada e tiver um filho, vou fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas”.
Tomás quase se engasgou com a sopa.
“Como?”
“Quero fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas” – repetiu ela, como se dissesse a coisa mais natural do mundo. Colocou a mão no seio esquerdo e espremeu-o de modo tal que o mamilo espreitou pela borda do decote. “Gostava de provar?”.
O problema é agravado pela escolha do autor de incluir nos diálogos quantidades absurdas e ridiculamente específicas de teorias sobre qualquer que seja o assunto em questão, tenha ou não tenha a ver com a temática principal da obra. Para quê focarmo-nos nas origens e missão de Cristóvão Colombo quando podemos dedicar até à exaustão múltiplas páginas sobre cardiologia e operações de risco, a história política do Brasil ou a génese da Ordem Militar de Cristo. Fora outros exemplos de que já me esqueci entretanto. Assim como o aluno sabichão quer mostrar à turma e ao professor o quão bem decorou a lição, também José Rodrigues dos Santos precisa de provar à população o quão extensa foi a sua pesquisa e quão boa é a sua compilação do que aprendeu. Infelizmente, seria necessária uma compilação da compilação para estas obras se tornarem mais úteis ou educativas – e já agora um editor para a leitura se tornar minimamente prazerosa.
Mas, Mariana, se é assim tão mau, por que é que se trata do autor mais vendido em Portugal, e pior, porque é que continuas a lê-lo? Para a primeira pergunta não tenho nenhuma resposta fundada, mas todos sabemos que uma coisa ser popular não significa que seja boa (um dogma que se verifica em todas as áreas). Aliás, acho que entretanto outros autores nacionais já o passaram à frente nas tabelas, também eles de qualidade literária duvidosa. Em relação ao por que é que continuo a ler… porque sinceramente ainda retiro mais pontos positivos do que negativos da experiência de leitura. Ou se calhar já estou num nível de Síndrome de Estocolmo com o Tomás Noronha, é uma possibilidade.
É terrível a quantidade de informação que é despejada nestas obras, mas também é possível fixarmos apenas alguns pontos-chave e conduzirmos uma pesquisa nos nossos trâmites, se estivermos para aí virados. Isto porque tendo a não acreditar cegamente em tudo o que leio lá, nem recomendo que o façam. Dúvida, cepticismo, curiosidade, são palavras que me acompanham sempre nas leituras deste autor e que me levam invariavelmente a aprender sempre alguma coisa nova, quiçá em alguma bibliografia mais bem reputada. Por isso, até ver, tenho aguentado os diálogos penosos e a ficção confrangedora em prol de um aumento de cultura geral que quando muito me poderá vir a ser útil quando participar num qualquer programa da RTP com o Vasco Palmeirim. Hum… Depois desta última reflexão, acho que afinal vou contradizer o que disse no último parágrafo e concluir que afinal acho que está na altura de desistir desta série penosa e ir ler alguma coisa de jeito. Há demasiados livros bons para ler antes de morrer.
Depois de ler o livro aproveitei para ver a série feita pela Globo em colaboração com a RTP, e que está disponível no RTP Play. Não gostei nada daquilo, a história está uma grande confusão e o Paulo Pires está com o carisma de... um pires. Não recomendo muito.
