Isabel de Aragão (ou a “Rainha dos Coimbrinhas”)

Sou um fraco espécime de amante de romance histórico, tão poucos que são os livros do género que leio. Mas a verdade é que se eu fosse comer todos os dias a minha comida preferida rapidamente me enjoaria, e deixaria de a apreciar tanto. Parece-me ao mesmo tempo uma analogia perfeitamente válida e uma desculpa terrível. E para quem se estiver a perguntar, a minha comida preferida é carne de porco à alentejana (peço perdão a todos os leitores vegetarianos e vegan).

O primeiro livro que li de Isabel Stilwell foi “D. Maria II” e não adorei nem o formato nem a imagem com que fiquei da rainha (para mais informação podem ler a opinião completa aqui). Posteriormente li “Inês de Castro” e aí sim, comecei a achar que Isabel Stilwell talvez fosse autora para mim. Nascida e criada em Coimbra como sou, a lenda de Pedro e Inês e do que se passou ou não na Quinta das Lágrimas são histórias que cresci a ouvir contar. Para além disso, ainda fiz todos os meus anos de catequese no Mosteiro de Santa Clara onde está sepultada a Rainha Santa Isabel, mãe de Pedro I e padroeira da cidade. Posto isto, “Isabel de Aragão” pareceu-me o título mais indicado para continuar o percurso da autora.

Todos sabemos que, nos séculos passados, nascer mulher nos colocava imediatamente num patamar inferior ao homem, mesmo dentro da realeza (huehue, sim, vamos fingir que era só no século passado). As princesas eram desde cedo usadas como moeda de troca e forjadoras de alianças entre reinos, casando com futuros monarcas influentes e ficando com o ónus da produção de herdeiros varões. Por esse motivo, poucas são as personagens femininas medievais dignas de nota nos anais da História, e em ficção o mais frequente é lermos sobre o quão ignoradas ou mal-tratadas eram pela sua família. Fiquei, portanto, muito agradada por saber que Isabel, “A Rosinha de Aragão“, foi uma princesa acarinhada pelos próximos, começando pelo seu avô, Rei Jaime I de Aragão, o irmão Jaime II, e a amiga que a acompanharia durante toda a vida, Vataça de Láscaris, hoje sepultada na Sé Velha de Coimbra.

Isabel de Aragão, futuramente conhecida por Rainha Santa Isabel, aqui representada com as protagonistas do seu mais famoso milagre, as rosas.

Ainda assim, a vida de Isabel não foi pacífica (no século XIII pouca coisa o era), e Isabel Stilwell ilustra bem um dos tormentos que a acompanhou a vida inteira: o flagelo do “irmão contra irmão“, desde conflitos na própria família, com o pai a perseguir os irmãos, até às guerras filiais que a iriam atormentar em Portugal – D. Dinis lutou durante décadas contra as pretensões do seu irmão mais novo, Afonso, e mais tarde o seu próprio filho Afonso IV entraria em conflitos com Afonso Sanches (que nome original!), bastardo e filho preferido do rei português. Foram muitos anos de guerrilha e disputas nas quais a Rainha Santa e a princesa Vataça intervieram muitas vezes como mediadoras.

São 500 páginas onde acompanhamos a longa vida da rainha, desde criança até à sua morte com 65 anos, em 1336, sobrevivendo ao seu esposo e à filha Constança. Como princesa de Aragão, rainha de Portugal e sogra do rei de Castela, esteve sempre no epicentro das intrigas da Península Ibérica nos séculos XIII e XIV. A sua devoção não só a Deus mas também aos pobres e doentes deu-lhe um estatuto de santidade que viria a ser oficializado em 1625. Foi uma grande patrona de obras de caridade em Coimbra, tendo sido por isso sepultada no Mosteiro de Santa Clara a Velha, que ajudou a fundar. Nos últimos anos de vida tomou o hábito das clarissas e no jacente do seu túmulo é visível a sua figura usando o hábito. Como muitos conimbricenses saberão, o Mosteiro de Santa Clara a Velha passa boa parte do tempo submerso, e por isso o seu corpo foi trasladado para um novo destino, no Mosteiro de Santa Clara a Nova.

Incrível pensar que nos 10 anos que andei na catequese, tive o privilégio de estar bem perto deste túmulo inúmeras vezes, numa altura em que podíamos andar livremente pelo Mosteiro.

Foi sem dúvida uma rainha exemplar, piedosa, extremosa, importante para a nossa História, de Portugal e da Península Ibérica. A obra de Isabel Stilwell faz-lhe toda a justiça, mas, para ser honesta, é inevitável que tantos nomes, datas e efemérides acabem por tornar alguns capítulos mais emaranhados e aborrecidos. Mas era assim a política ibérica na altura – conflituosa e confusa. Mesmo depois de peneirarmos as secções que não nos interessam tanto, continuamos com uma obra sólida e com um relato competente sobre quem foi a Rainha Santa Isabel, e uma história que devia ser mais conhecida pelos portugueses.

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